Experiência da Coffee Lab, em São Paulo, viraliza nas redes sociais e levanta discussões sobre produtividade, bem-estar e modelos alternativos de trabalho
Enquanto o debate sobre o fim da escala 6×1 avança no Congresso, uma cafeteria de São Paulo decidiu testar um modelo ainda mais radical — e os resultados chamaram atenção. A rede Coffee Lab adotou uma jornada de trabalho 4×3 para sua equipe operacional e afirma ter registrado crescimento de até 35% no faturamento após a mudança.
A iniciativa foi implementada há cerca de oito meses e ganhou grande repercussão nas redes sociais após a fundadora da empresa, Isabela Raposeiras, explicar publicamente como funciona o novo modelo.
Segundo a empresária, além do aumento no faturamento, o crescimento considerando o EBITDA — indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — foi de 22%. Atualmente, as duas unidades da marca registram faturamento mensal próximo de R$ 550 mil.
Funcionários apoiaram a mudança
Raposeiras está à frente do Coffee Lab há cerca de 15 anos e afirma que nunca foi adepta da tradicional escala 6×1, comum no setor de varejo e alimentação.
No modelo adotado pela cafeteria, os funcionários trabalham quatro dias por semana com jornadas de aproximadamente 10 horas por dia, totalizando cerca de 40 horas semanais. Em troca, recebem três dias consecutivos de folga.
A mudança foi estruturada ao longo de um mês e contou com apoio integral dos cerca de 30 funcionários da operação. Segundo a empresária, a implementação exigiu a formalização de um acordo coletivo e a atualização dos contratos de trabalho para refletir a nova jornada.
“Quem trabalha no setor de alimentação e varejo, muitas vezes com expediente em finais de semana e feriados, valoriza muito o descanso adicional”, afirma.
Vídeos viralizaram e dividiram opiniões
A discussão ganhou força após vídeos publicados nas redes sociais da empresa viralizarem. Um deles ultrapassou 400 mil visualizações e gerou milhares de comentários com dúvidas sobre o funcionamento da escala.
Entre as reações, houve tanto elogios quanto críticas. Algumas pessoas demonstraram interesse em trabalhar na empresa — segundo Raposeiras, mais de 20 currículos foram enviados após a repercussão — enquanto outros questionaram a carga horária diária.
Parte dos comentários apontou que jornadas de 10 ou 11 horas por dia ainda seriam intensas, mesmo com três dias de descanso.
Apesar das críticas, a empresária afirma que o modelo trouxe ganhos claros para a operação.
Produtividade e eficiência operacional
Segundo Raposeiras, um dos fatores que ajudaram a viabilizar a escala 4×3 foi a reorganização do funcionamento da loja.
No novo modelo, todos os funcionários entram e saem no mesmo horário: chegam cerca de uma hora antes da abertura da cafeteria e permanecem até aproximadamente uma hora após o fechamento.
Essa dinâmica elimina turnos sobrepostos e facilita a divisão das tarefas entre a equipe.
A empresária acredita que o principal impacto da mudança foi o aumento da eficiência operacional.
“A maior agilidade no atendimento, somada a uma equipe mais descansada e motivada, acaba refletindo diretamente nas vendas”, explica.
No setor de alimentação, onde boa parte do consumo é rápido — como cafés e pequenos lanches — a velocidade no atendimento pode influenciar diretamente o faturamento.
Bem-estar da equipe também pesa nos resultados
Outro fator apontado pela empresária é o impacto do descanso no desempenho da equipe.
Segundo ela, funcionários mais descansados tendem a trabalhar com mais disposição e eficiência, o que melhora o atendimento ao cliente e contribui para o desempenho financeiro do negócio.
Raposeiras afirma que, no futuro, a empresa ainda estuda reduzir a jornada diária para oito horas, mantendo quatro dias de trabalho por semana — o que levaria a carga total para cerca de 32 horas semanais.
A possibilidade depende de ganhos adicionais de eficiência na operação.
Debate sobre jornada avança no país
A discussão sobre modelos alternativos de jornada de trabalho ganhou força no Brasil nos últimos anos.
No Congresso Nacional, propostas discutem a redução da carga semanal e o fim da escala 6×1. Uma das propostas em análise prevê a redução da jornada para 36 horas semanais e dois dias obrigatórios de descanso.
A proposta foi apresentada pela deputada Erika Hilton e ainda precisa passar por diferentes etapas de análise antes de uma eventual votação no plenário.
Enquanto o debate segue no campo político, experiências como a do Coffee Lab mostram que algumas empresas já começam a testar novos modelos na prática — buscando equilibrar produtividade, bem-estar da equipe e resultados financeiros.
Fonte: PEGN

