De segurança a empresário global: o que mudou no meio do caminho

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Empreendedor transformou erros de gestão em negócio global no setor de beleza

Errar faz parte do jogo — mas repetir o erro pode custar caro. Lucas Olivetti, hoje com 35 anos, sentiu isso na prática. Após três empresas que não deram certo, ele percebeu que o problema não estava apenas no modelo de negócio, mas na forma como ele se posicionava como líder.

“Eu queria provar o tempo todo que estava certo”, admite. A dificuldade em lidar com pessoas e o próprio ego acabaram impactando diretamente suas primeiras tentativas como empreendedor.

A virada só veio depois da terceira falência, em 2016.

Foi nesse momento que, em vez de tentar mais um negócio imediatamente, ele decidiu fazer algo incomum: buscar um emprego que o obrigasse a desenvolver justamente aquilo que mais faltava — disciplina, hierarquia e relacionamento com o público.

A “faculdade” que não estava nos planos

O caminho escolhido foi trabalhar como segurança em um terminal de ônibus em Londrina (PR). Antes disso, distribuiu currículos diversas vezes até conseguir uma oportunidade.

Durante dois anos, viveu uma rotina intensa: turnos alternados entre dia e madrugada, escala rígida e contato direto com diferentes tipos de público — de crianças em tratamento a pessoas com deficiência.

O período, segundo ele, funcionou como uma verdadeira formação prática.

Foi ali que desenvolveu senso de responsabilidade, aprendeu a respeitar processos e, principalmente, a lidar com pessoas — algo que havia sido um dos principais obstáculos em sua trajetória anterior.

Os erros que vieram antes do acerto

A relação com o trabalho começou cedo. Ainda criança, ajudava o avô na produção de hortaliças orgânicas, vendidas em feiras. A rotina começava antes do amanhecer e já trazia um primeiro contato com vendas e disciplina.

Mais tarde, aos 14 anos, começou a estagiar na gráfica do padrasto, onde passou por diferentes setores e teve seu primeiro contato com o mercado de papel e celulose.

Aos 19 anos, abriu sua primeira empresa: uma fábrica de tampas de isopor para marmitex. O negócio durou um ano.

Na sequência, criou uma fábrica de sacolas de papel em sociedade, que chegou a ter 30 funcionários e bom faturamento — mas acabou encerrada após cerca de quatro anos, em meio a problemas de gestão e dívidas.

A terceira tentativa seguiu o mesmo caminho. Atuando como representante comercial, não conseguiu sustentar o crescimento do negócio.

O padrão era claro — e ele só percebeu depois.

“Eu não sabia lidar com pessoas. Cobrava demais, não ouvia e não admitia trazer alguém melhor do que eu”, afirma.

O início da virada

Mesmo trabalhando como segurança, Olivetti não abandonou o empreendedorismo. Durante as folgas, voltou a atuar como representante comercial, utilizando a própria moto para visitar clientes.

Em poucos meses, a renda com comissões começou a se equiparar ao salário fixo. Foi o sinal que ele precisava.

Decidiu sair do emprego e focar integralmente nas vendas — agora com uma mentalidade diferente, mais madura e consciente dos próprios limites.

Esse movimento abriu caminho para o encontro que mudaria sua trajetória.

A ideia que virou negócio

A oportunidade surgiu em uma conversa simples com um cabeleireiro. O profissional reclamava da incompatibilidade entre o alumínio usado em mechas e os produtos químicos utilizados no cabelo.

Para a maioria, seria apenas uma reclamação comum.

Para Olivetti, foi um insight.

Com experiência no setor de papel, ele começou a pesquisar alternativas e percebeu uma lacuna no mercado: não existia uma solução eficiente que substituísse o alumínio no processo.

A decisão foi radical.

Abandonou a estabilidade que havia conquistado para se dedicar 100% ao desenvolvimento da ideia. Utilizou a gráfica do padrasto para testes e contou com a ajuda de um cabeleireiro para validar o produto na prática.

Mas o início esteve longe de ser simples.

“Eu achava que ficaria milionário rápido”, admite.

A realidade trouxe desafios financeiros, rejeição do mercado e desconfiança. Afinal, poucos acreditavam que alguém que até pouco tempo era segurança poderia desenvolver uma solução inovadora para o setor de beleza.

A estratégia que destravou o crescimento

A virada começou a ganhar forma no fim de 2019, quando conheceu seu futuro sócio, Adailton Maciel.

Foi ele quem sugeriu uma mudança estratégica: adotar o modelo de private label, produzindo para outras marcas.

A ideia transformou uma limitação em vantagem.

Sem precisar construir uma marca forte desde o início, Olivetti conseguiu entrar no mercado utilizando a estrutura e a credibilidade de outras empresas — movimento que viabilizou o negócio em 2020.

A decisão mais arriscada

O ponto de virada aconteceu poucos dias antes da pandemia.

Em março de 2020, Olivetti participou de uma reunião com uma multinacional do setor de cosméticos. Mesmo sem estrutura consolidada, fez uma proposta ousada: pediu um aporte de R$ 250 mil diretamente em sua conta para iniciar a produção.

A proposta foi aceita.

Com o início do lockdown, enquanto muitos recuavam, ele fez o oposto. Viajou pelo país durante seis meses, passando por 12 estados e levantando cerca de R$ 2 milhões em antecipações de clientes.

Esse capital permitiu estruturar a fábrica própria ainda em 2020 — financiada, na prática, pelos próprios clientes.

De ideia a operação global

Fundada em 2020, a Papel para Mechas rapidamente ganhou escala.

Hoje, a empresa está presente em mais de 60 mil salões, em 19 países, e já vendeu mais de 260 milhões de folhas.

O produto substitui o alumínio por um papel sustentável, produzido com madeira de reflorestamento, tintas atóxicas e adesivo vegetal à base de mandioca. Além disso, conta com tecnologias patenteadas que melhoram o desempenho no processo de descoloração.

Mais do que inovação, a proposta também atende a uma demanda crescente por sustentabilidade no setor de beleza.

Crescimento e próximos passos

Em 2025, a empresa faturou R$ 4,5 milhões, com média mensal de R$ 375 mil. Para 2026, a projeção é mais que dobrar esse número e atingir R$ 10 milhões, além de expandir a presença para até 50 países.

O avanço internacional ganhou força após a participação em uma feira em Bolonha, na Itália, onde a sustentabilidade se mostrou uma das principais tendências globais.

Agora, o plano é acelerar ainda mais.

Entre os próximos passos estão a entrada mais agressiva nos Estados Unidos e o lançamento de uma linha global com identidade brasileira, valorizando a origem e a diversidade do país.

Mais do que uma história de sucesso

A trajetória de Lucas Olivetti não é apenas sobre acertar depois de errar.

É sobre entender que, muitas vezes, o maior obstáculo não está no mercado — está na forma como o empreendedor pensa, decide e se posiciona.

E que, às vezes, o passo mais estratégico não é abrir um novo negócio.

É parar, aprender e voltar melhor.

Fonte: PEGN

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