Empreendedores apostaram em marketing irreverente, feiras físicas e estrutura própria para escalar operação de cookies no Rio de Janeiro.
O que começou na cozinha da casa da mãe se tornou uma operação que vende cerca de 8 mil cookies por mês e alcança faturamento médio de R$ 90 mil mensais. A Cookie Pisca, criada por Gabriel Carvalho Pereira, 27, e seu noivo e sócio Felipe Almeida de Oliveira, 27, nasceu em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, e ganhou tração ao unir produto artesanal, presença em feiras e estratégia de viralização nas redes sociais.
O ponto de inflexão veio com um vídeo que ultrapassou 3,3 milhões de visualizações no Instagram em fevereiro de 2026. Desde então, o negócio entrou em nova fase: fábrica própria, expansão de canais e planos para operar múltiplas marcas no formato dark kitchen.
Do improviso ao modelo estruturado de negócio
Antes da confeitaria, Gabriel acumulou tentativas frustradas na vida acadêmica. Iniciou quatro graduações e não concluiu nenhuma. O empreendedorismo apareceu como alternativa prática e imediata.
Com experiência anterior no varejo de moda e formação técnica em produção de moda, ele trouxe para o negócio uma visão estratégica de identidade visual e posicionamento. A pandemia fechou sua loja de roupas e acelerou a busca por um modelo que pudesse ser operado de casa, com baixo investimento inicial.
A primeira fase da Cookie Pisca foi informal: produção doméstica e vendas na faculdade de Farmácia da UERJ, onde sua irmã revendia os produtos. Sem cálculo correto de custos, a operação chegou a dar prejuízo.
A virada aconteceu no fim de 2022, quando um vídeo no TikTok atingiu 1 milhão de visualizações. O problema deixou de ser vender — passou a ser produzir. O forno doméstico assava apenas oito unidades por vez, gerando atrasos de até 20 dias nas entregas.
O crescimento forçou a mudança para uma quitinete alugada, onde o casal adquiriu o primeiro forno com maior capacidade. A experiência revelou uma lição comum a pequenos empreendedores que viralizam: alcance sem estrutura pode comprometer a escalabilidade.
Feiras gastronômicas como canal estratégico
Com a queda natural da audiência digital após o primeiro pico viral, a marca buscou diversificação de canais. A entrada nas feiras gastronômicas do Rio de Janeiro foi decisiva.
Hoje, a Cookie Pisca mantém presença fixa na Feira da Praça XV, aos sábados, e na Feira da Glória, aos domingos. Em um único fim de semana, a marca chega a vender até 2 mil unidades.
Atualmente, além dos sócios, a operação conta com três funcionários na fábrica e quatro revendedores comissionados nas feiras. Só esse canal responde por aproximadamente R$ 70 mil do faturamento mensal.
Marketing com trocadilhos e identidade provocativa
Sem orçamento para anúncios pagos no início, a marca apostou em algo mais difícil de replicar: identidade memorável.
O nome “Cookie Pisca” e a comunicação com trocadilhos de duplo sentido foram pensados para gerar compartilhamento orgânico. A lógica era simples: se não há verba para mídia, o marketing precisa ser naturalmente comentável.
Sabores como Nutella, Ninho com Nutella, Red Velvet e Brownie se tornaram carros-chefes, mas a escolha vai além do paladar. Segundo o fundador, o critério também considera o potencial de viralização do nome nos vídeos.
Um dos conteúdos mais performáticos utilizou o sabor Ninho com Nutella em um vídeo com duplo sentido que ultrapassou 1,5 milhão de visualizações. O resultado foi imediato: filas nas feiras e aumento expressivo nas vendas.
A estratégia mostra como marketing digital para pequenos negócios pode ir além de impulsionamento pago, focando em construção de marca e linguagem própria.
Estrutura própria e ganho de escala
Há três meses, a Cookie Pisca deixou a produção doméstica e inaugurou fábrica própria em Santa Cruz. O investimento em maquinário industrial aumentou drasticamente a capacidade produtiva.
A batedeira anterior produzia 20 unidades por ciclo. A atual chega a 350. Com equipe enxuta de três pessoas, a produção alcança cerca de 2 mil cookies por dia.
Além das feiras, o negócio opera com:
- E-commerce próprio com envios para todo o Brasil
- Delivery via iFood, inicialmente em Santa Cruz, com planos de expansão para outras regiões do Rio
O movimento marca a transição de microempreendimento artesanal para operação semi-industrial.
Próximo passo: grupo de marcas em formato dark kitchen
Com capacidade ociosa na fábrica, os empreendedores planejam lançar novas marcas ainda em 2026. A estratégia envolve operar diferentes produtos no mesmo espaço — como açaí, salgados e pastel — aproveitando equipamentos e equipe já estruturados.
O modelo segue a lógica de dark kitchen, tendência crescente no setor de alimentação, em que múltiplas marcas compartilham infraestrutura para reduzir custos fixos e aumentar margem.
Mais do que um negócio de cookies, a Cookie Pisca caminha para se tornar um pequeno hub gastronômico digital-first, combinando viralização, presença física estratégica e diversificação de portfólio.
A trajetória reforça uma tendência clara no empreendedorismo brasileiro: marcas que nascem nas redes sociais podem escalar rapidamente — desde que consigam transformar audiência em estrutura e estrutura em modelo sustentável de negócio.
Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios

