Crédito mais barato para pequeno negócio, mas dívida antiga trava o caixa

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Semana mistura aprovação bancária no maior nível desde 2022, atraso recorde de R$ 86,1 bilhões entre empresas e abertura de programa de renegociação para o MEI

Por Redação

A semana trouxe um retrato em duas camadas para quem toca um pequeno negócio no Brasil. De um lado, o crédito bancário ficou mais acessível. Do outro, a conta represada dos anos de juros altos continua chegando, e em volume recorde. Entender essas duas forças ao mesmo tempo é o que ajuda o empreendedor a tomar a próxima decisão sobre caixa, sem se iludir com a parte boa da notícia nem travar diante da parte ruim.

O lado favorável veio da pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, do Sebrae: a aprovação de pedidos de crédito para pequenas empresas chegou a 46%, o maior patamar desde 2022. A inadimplência também recuou, de 28% no início do ano para 25% em julho. A entidade associa a melhora à trajetória de queda da Selic, que reduz o custo do dinheiro e facilita tanto a concessão quanto o pagamento em dia. Na prática, isso significa que quem precisa de capital de giro ou de investimento encontra hoje uma porta um pouco mais aberta do que encontrava há dois anos.

O problema é que essa porta mais aberta não apaga o estoque de dívida que já existe. Levantamento da FecomercioSP com dados do Banco Central mostrou que o crédito empresarial em atraso bateu recorde histórico: R$ 86,1 bilhões, alta de 24% em doze meses, com patamar recorde simultâneo em 18 dos 27 estados. Pequenas e médias empresas concentram três de cada quatro reais nesse montante, mesmo representando menos da metade de toda a carteira de crédito do país. O levantamento é claro quanto à causa: o problema não é o volume de dívida que essas empresas contraíram, e sim a dificuldade de pagar as parcelas depois do ciclo de juros altos entre 2022 e 2025.

Juntando os dois movimentos, fica um recado direto para quem administra o caixa de um negócio pequeno: juro mais baixo ajuda a dívida nova, mas não resolve sozinho a dívida velha. Renegociar passivo em atraso antes de buscar crédito novo tende a ser mais eficiente do que empilhar uma linha de capital de giro em cima de um compromisso que já está pesando. Cartão de crédito e empréstimo de curto prazo, historicamente as modalidades com juro mais alto, costumam ser os primeiros candidatos a essa reorganização.

Para a próxima semana, o calendário já aponta um movimento concreto nessa direção, direcionado ao microempreendedor individual. Começam nesta quinta feira, dia 1º de outubro, as inscrições do Desenrola MEI Pequeno Valor, programa do governo federal para renegociar dívidas de até cinco salários mínimos, cerca de R$ 8.105, que o MEI tenha com a União. As inscrições seguem até 31 de janeiro de 2027. A condição prevê entrada de 5% sem desconto e o restante parcelado em até 55 vezes, com redução de 50% no saldo. Para o MEI que está com o CNPJ travado por pendência, essa é a janela para regularizar a situação e voltar a emitir certidão e acessar linha de crédito, dois pontos que normalmente ficam bloqueados enquanto a dívida está em aberto.

O balanço da semana, portanto, aponta para um cenário de transição: o crédito melhora na margem, mas a cobrança do período de juro alto ainda não terminou. Quem toca um pequeno negócio ganha mais fazendo o diagnóstico do próprio passivo agora, separando o que pode ser renegociado em condição melhor do que tentar sustentar no cartão, e, no caso do MEI, avaliando se as dívidas com a União se enquadram no programa que abre nos próximos dias. Buscar crédito novo sem antes organizar esse passivo tende a adiar o problema, não a resolver.

Com informações de Casa do Contabilista (Sebrae), Sincofarma SP (FecomercioSP/Banco Central) e Diário do Grande ABC.

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