Entre a corrida da inteligência artificial e o aperto no caixa, pequeno negócio vive semana de contrastes

Análise

Dados mostram adoção de IA acima da média americana ao mesmo tempo em que a inadimplência empresarial bate recorde no país

Por Redação

A semana escancarou dois movimentos que caminham lado a lado, mas em direções opostas, dentro do universo dos pequenos negócios brasileiros. De um lado, a adoção de inteligência artificial avança mais rápido do que muita gente esperava. Do outro, o caixa de milhões de empresas de pequeno porte segue sob pressão, num cenário de inadimplência recorde.

O retrato mais forte veio de um levantamento do Sebrae com o Meta Instituto de Pesquisa, feito entre março e maio com mais de 7 mil entrevistados. Mais da metade dos donos de pequenos negócios do país afirmou ter usado alguma ferramenta de inteligência artificial nas duas semanas anteriores à pesquisa, proporção maior do que a registrada em levantamento equivalente nos Estados Unidos. Ainda assim, o uso concentra tarefas do dia a dia, como produção de texto e imagem, e não uma reformulação completa do negócio.

Esse movimento apareceu em outros pontos da semana. No WhatsApp Business Summit, a Meta reforçou que o aplicativo deixou de ser só um canal de atendimento automático e passa a ser tratado como plataforma de comércio, com agentes de inteligência artificial conduzindo boa parte da jornada do cliente, da descoberta do produto até o pagamento. No B2B Summit 2026, em São Paulo, mais de 200 palestrantes discutiram como dados e inteligência artificial estão remodelando a forma como empresas compram de outras empresas. E um estudo divulgado na semana mostrou o outro lado dessa moeda: a maioria das marcas testadas simplesmente não aparece quando ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini e Perplexity são consultadas sobre produtos do setor, um risco de invisibilidade que já tira o sono de boa parte dos executivos ouvidos na pesquisa.

Enquanto a inteligência artificial se espalha pela rotina do pequeno empreendedor, o caixa segue apertado. A Serasa Experian registrou o maior número histórico de empresas com dívidas em atraso, com mais de 9 milhões de CNPJs negativados e dívidas somando acima de R$ 230 bilhões. Micro e pequenas empresas respondem pela quase totalidade desses devedores, com destaque para o setor de serviços. Mesmo com os cortes de juros ao longo do ano, a Selic ainda é considerada alta demais para sustentar o fôlego financeiro de negócios menores.

Essa fragilidade financeira também tem rosto. Pesquisa do Instituto Rede Mulher Empreendedora mostrou que mais da metade das empreendedoras brasileiras começou o negócio por necessidade, enfrenta mais obstáculos do que os homens no mesmo mercado e, em boa parte dos casos, sustenta a casa sozinha, sem outro provedor para dividir o risco do caixa apertado.

A semana que se abre deve manter esse mesmo compasso de dois tempos. Entre os dias 26 e 28 de agosto, Florianópolis recebe o Startup Summit, que deve reunir mais de dez mil pessoas e traz Luiza Trajano, do conselho do Magazine Luiza, para falar sobre como a inteligência artificial pode ampliar oportunidades para diferentes públicos. Ao mesmo tempo, especialistas já chamam atenção para o fato de que agosto é o mês de começar a organizar a Black Friday, definindo produtos, margem e reposição com fornecedores antes que outubro e novembro cheguem sem planejamento.

Para o pequeno negócio, o recado da semana é direto. Ignorar a inteligência artificial não é mais opção segura, já que ela virou prática comum entre concorrentes de porte parecido. Mas adotar ferramenta nova sem antes colocar o fluxo de caixa em ordem, renegociar dívidas em atraso e planejar o próximo pico de vendas é meio caminho andado para acumular problema novo em cima do antigo. As duas frentes precisam andar juntas nas próximas semanas.

Com informações de Agência Sebrae de Notícias, Mercado&Consumo, Rede Mulher Empreendedora, Portal Information Management, Mundo do Marketing e Brasil Inovador.

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