Dados de adoção, um caso de venda fechada por agente de IA e o avanço do Cade sobre precificação marcam os primeiros dias de setembro e apontam o que vem a seguir para quem decide negócio no Brasil.
Por Redação
A semana de 1 a 8 de setembro deixou um recado claro para quem toca negócio no Brasil: a inteligência artificial parou de ser assunto de departamento de tecnologia e passou a ocupar a mesa de decisão estratégica, ao lado de caixa, vendas e concorrência. Um conjunto de estudos, lançamentos e movimentos regulatórios divulgados nos últimos dias mostra que a adoção da tecnologia já é maioria entre as empresas brasileiras, mas que a distância entre usar IA e lucrar com ela continua enorme.
O retrato mais amplo veio de um levantamento da consultoria Strand Partners para a AWS, apresentado durante o AWS Summit São Paulo. Segundo o estudo, metade das empresas brasileiras, o equivalente a cerca de 12 milhões de negócios, já usa alguma ferramenta de inteligência artificial, um salto em relação aos 40% registrados no ano anterior. O problema aparece na camada seguinte: apenas 15% das empresas operam num estágio avançado, com capacidade de transformar processos internos ou criar novos modelos de negócio a partir da tecnologia, e só 6% já usam IA agêntica, aquela capaz de executar tarefas de ponta a ponta sem intervenção humana constante.
Entre as startups, o cenário é bem diferente. O mesmo levantamento mostrou que 68% delas já usam IA, contra 53% há um ano, e 26% operam com sistemas complexos que combinam vários modelos ou automação autônoma, quase o dobro do índice das pequenas e médias empresas tradicionais. A projeção da AWS é que a adoção entre startups chegue a até 90% no próximo ano, o que amplia ainda mais a diferença de ritmo entre os dois grupos.
Essa diferença de maturidade também apareceu numa pesquisa da CI&T em parceria com a Fundação Dom Cabral, divulgada no fim da semana. O estudo constatou que 80% das empresas brasileiras já alinham o uso de inteligência artificial à estratégia do negócio, mas 55,1% admitem não ter nenhum mapeamento estruturado para calcular o retorno sobre esse investimento. Apenas 22,5% conseguiram medir um retorno superior a 30%. Na prática, boa parte do mercado sabe que precisa usar IA, mas ainda não sabe dizer se está ganhando dinheiro com ela.
Enquanto a maturidade ainda engatinha em boa parte do mercado, alguns casos concretos mostraram o que a próxima etapa pode parecer. A Decolar anunciou a primeira venda inteiramente conduzida por inteligência artificial no Brasil: a assistente Sofia pesquisou opções, fez a reserva e gerou um QR Code de pagamento via Pix, tudo dentro da mesma conversa, sem passagem pelo checkout tradicional. Sofia já participa de cerca de 2 milhões de conversas por mês e responde por 6,7% da receita do canal B2C da empresa, que planeja levar o mesmo modelo para passagens aéreas, pacotes e aluguel de carros.
O movimento também chegou à prateleira de quem vende tecnologia para pequenos negócios. A Salesforce passou a incluir recursos do Agentforce, sua ferramenta de agentes de IA, nos planos Free, Starter e Pro, historicamente fora do foco principal da companhia. A mudança derruba a barreira de preço que mantinha esse tipo de automação restrita a empresas grandes. O Agentforce já fatura US$ 800 milhões e foi um dos motores do crescimento de 10% na receita da Salesforce em 2025. Na mesma linha, a SAP reuniu clientes e parceiros nos dias 9 e 10 de setembro, em São Paulo, no SAP NOW AI Tour Brazil, com mais de 300 sessões dedicadas à ideia de empresa autônoma, em que agentes de IA assumem parte da gestão do negócio.
O avanço da tecnologia também despertou o regulador. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica passou a tratar a economia digital como tema central e já exigiu notificação formal de uma operação entre Microsoft e Inflection AI mesmo sem faturamento relevante no Brasil, por entender que o valor competitivo estava em talento e propriedade intelectual. O órgão também fechou acordo com a Intelprice, cujo software de precificação permitia troca de dados sensíveis entre postos de combustível, e abriu processo contra Latam e Gol por suspeita de alinhamento de preços. O sinal é direto: ferramentas de IA usadas para precificação e automação de decisões comerciais entraram no radar da defesa da concorrência.
Para a semana que começa, a expectativa é que o debate se desloque da pergunta sobre quem já usa IA para quem consegue medir o retorno e escalar sem esbarrar no regulador. Empresas que ainda tratam a tecnologia como projeto isolado de TI tendem a ficar para trás diante de concorrentes que já embutem agentes de IA em vendas, atendimento e precificação. O caminho mais seguro passa por definir, antes de qualquer nova assinatura de ferramenta, qual indicador vai medir o resultado e qual limite evita atrito com o Cade.
Com informações de Exame, TrendsCE, TI Inside, Mercado&Consumo, InfoMoney e SAP News Brasil.

